Ultrassom no joelho com artrose: o que ele mostra (e o que não mostra)

O joelho inchou de novo. O laudo do raio-x já está no celular. A dor, porém, não cabe na extensa nota do laudo.

Na consulta entra outro olhar: o ultrassom musculoesquelético — aparelho de mão, ali na sala de exame. Segundo par de olhos. Não mostra o mesmo filme do raio-x. Não responde a mesma pergunta.

O que a revisão de 2026 juntou

Siddiq, Duong, Jia, Linklater, Oo e Hunter publicaram em 2026, na revista Osteoarthritis and Cartilage, uma revisão sistemática com metanálise sobre a validade do ultrassom na artrose do joelho. PMID 41831592. DOI 10.1016/j.joca.2026.03.003.

Busca até dezembro de 2024. Cento e seis estudos. Quase nove mil e oitocentos pacientes. Mais de onze mil articulações examinadas. Idade média dos pacientes perto dos 63 anos.

Financiamento indexado: NHMRC, University of Sydney, Arthritis Australia.

Onde o ultrassom enxerga bem

A metanálise mostrou validade discriminativa forte para três coisas que a gente vê (ou não vê) na sala: cisto de Baker — o cisto, aquela bolinha, atrás do joelho —, derrame (líquido na articulação) e bursite anserina (a bursa da “pata de ganso”, por dentro, abaixo da linha articular). Odds ratios na faixa de cerca de 3 a 6, com heterogeneidade moderada ou baixa nesses desfechos.

Em português de consultório: na artrose de joelho, o aparelho de ultrassom é forte pra mostrar líquido, cisto de Baker e bursite anserina — achados que o raio-x muitas vezes não conta. Isso muda a conversa do que dá pra ver na sala de exame. Não porque “fecha o diagnóstico da artrose” e também não porque “prova” a sua dor: achar lesão e sentir dor são perguntas diferentes (a correlação com dor, inclusive, na mesma revisão, foi fraca).

Onde ele não mede a dor

As correlações entre os achados de ultrassom e a dor foram fracas (r na faixa de 0,04 a 0,22). Com biomarcadores no sangue, também fracas. Com a radiografia, fracas a moderadas. Com sinovite na ressonância, moderadas.

A validade geral do ultrassom na gonartrose — artrose do joelho — é heterogênea: depende do que o médico está perguntando ao exame.

Muito importante: ultrassom na sala não é igual o raio-x. O raio-x conta espaço articular, osteófito, o “osso no osso” do laudo. O ultrassom vê o líquido, cisto, bursa, o que o raio-x muitas vezes não conta. Nenhum dos dois, sozinho, mede o volume da sua dor. A dor continua sendo história + exame físico + demanda, e quando necessário, exame de imagem.

O que trazer à consulta

Anota onde dói, onde incha, onde trava. Se a bola atrás do joelho aparece no fim do dia. Se a dor na parte de dentro do joelho piora na escada. Traz o laudo do exame se tiver. A conduta sai dessa cena — não de um aparelho prometendo “ver a artrose toda”.

Dr. Pedro Galvão
CRM-PR 35.375 · RQE 27.205
Ortopedia e Cirurgia do Joelho · Galvão Ortopedia, Londrina
Conteúdo educativo. Não substitui avaliação presencial.