A cena quase sempre começa igual. O paciente entra, senta, e conta: a dor “até que vai”. O que está difícil é outra coisa: girar o corpo pra sair do carro. Subir o meio-fio. Ficar em pé no supermercado. Calçar a meia, em alguns casos, já denuncia outra articulação — a coxartrose, artrose do quadril. Mas hoje vamos falar do joelho.
Não daria para resumir tudo em apenas um texto. Vamos devagar. Uma coisa de cada vez.
Gonartrose: o nome técnico, depois o popular
A artrose ou a osteoartrite do joelho se chama gonartrose. É o desgaste da cartilagem — aquela capa que recobre o fêmur, a tíbia e a patela (a rótula) e permite o deslizamento entre os ossos. Conforme o desgaste avança, o osso, que deveria só sustentar, também entra na história: junto dos tendões, ligamentos e mudanças da lubrificação articular, vai se instalando deformidade, às vezes até falha óssea. Isso pode levar anos para aparecer.
No começo, os sintomas são leves: dor e inchaço local depois do esforço. Perna pesada. Depois, a caminhada, o agachar, ficar em pé, subir ou descer escada. A depender do grau, entrar ou sair de um carro, levantar da cadeira, caminhar pouca distância.
A artrose é crônica e progressiva. A degeneração em si não tem cura. Apesar disso, tem o que fazer: aliviar dor, ganhar amplitude, devolver mobilidade. Qual caminho, porém, não sai de um protocolo impresso.
O que a consulta realmente junta
O diagnóstico não é um laudo solto. É história clínica + exame físico + exame de imagem, na maior parte das vezes o Raio-X. A ressonância entra quando a gente precisa olhar menisco, ligamento, cartilagem ou o osso de outro jeito — não como primeiro passo automático de todo joelho que dói.
A partir disso dá pra entender o padrão de acometimento, se tem deformidade ou falha óssea, e o grau do desgaste. E, muito importante, a demanda. O joelho de quem trabalha sentado o dia inteiro não pede a mesma coisa do que o joelho de quem quer voltar a correr. Idade, trabalho, esporte, o que já foi tentado, lesões associadas: tudo isso muda o raciocínio.
Não-cirúrgico e cirúrgico não são times adversários
O tratamento da gonartrose se divide em não-cirúrgico e cirúrgico. Nem todas as opções servem para todos. E apesar da divisão, eles não são excludentes. Muito pelo contrário. Exceto alguns poucos casos, é comum — inclusive para quem no futuro vai precisar de cirurgia — começar pelo não-operatório.
Do lado não-cirúrgico: analgésicos, anti-inflamatórios, condroprotetores… Anti-inflamatório também em gel ou creme, quando faz sentido, buscando menos efeito no estômago. Infiltração com corticoide. Viscossuplementação com ácido hialurônico. Isso pode melhorar sintomas, ao menos por um tempo, e abrir janela para o fortalecimento sem dor incapacitante.
Fisioterapia é fundamental. Alongamento, mobilidade, equilíbrio, marcha, fortalecimento muscular. Bengala, palmilha, órtese: em casos selecionados, diminuem sobrecarga. Não são “coisas de idosos”. São grandes aliados do tratamento.
E, muito importante, o que previne e o que trata ao mesmo tempo: sair do sedentarismo, peso em faixa razoável, alimentação balanceada, exercício de baixo impacto. Bicicleta, hidroginástica, elíptico (o “transport” da academia).
Plasma rico em plaquetas e o que mais a medicina regenerativa for regulamentando no Brasil: conversa de consulta, com indicação individualizada, com o que há de mais atualizado, sempre pautado pelo que a normatização do Conselho Federal de Medicina (CFM) e Anvisa permitem hoje.
Quando a cirurgia entra na mesa
Cirurgia de menor ou de maior porte depende do grau da artrose, de deformidade ou falha óssea, das outras doenças da pessoa, e da demanda.
(1) Artroscopia (duas incisões, cirurgia por câmera) raramente é indicada para a artrose.
(2) Osteotomia (cortar o osso de forma programada para alinhar o membro) pode ser uma saída para muitos casos onde a deformidade impera e a demanda do paciente ainda é elevada.
(3) Prótese Unicompartimental quando a doença estiver restrita a um espaço apenas do joelho ou
(4) Prótese Total, quando o desgaste ocupar todo o joelho.
Cada uma dessas alternativas merece o próprio texto.
O ponto da consulta, hoje, é outro: a operação não é o primeiro parágrafo.
É uma das saídas, quando as outras não dão conta da vida que aquela pessoa precisa viver.
Se o seu joelho dói para sair do carro, o próximo passo não é escolher o implante. É sentarmos para voce me contar a sua história. Na sequencia voce vai passar por um exame fisico especializado, direcionando exames complementares, para, entao, traçarmos um caminho que caiba na sua demanda.
Dr. Pedro Galvão
CRM-PR 35.375 · RQE 27.205
Ortopedia e Cirurgia do Joelho · Galvão Ortopedia, Londrina
Conteúdo educativo. Não substitui avaliação presencial.