Ondas de choque em Londrina

Equipamento de ondas de choque Swiss Dolorclast New na sala da Galvão Ortopedia em Londrina, console e peça de mão sobre maca vazia

O ESSENCIAL: Onda de choque não é choque elétrico. É uma onda de pressão aplicada sobre o ponto que dói. O estímulo mecânico conversa com as células: modula a dor, estimula irrigação e sinaliza reparo no tecido. A literatura concentra as melhores evidências em fascite plantar, tendinopatia calcárea do ombro, artrose do joelho e dor no grande trocânter (quadril) — sempre como comportamento de grupos em estudo, nunca como previsão para o seu caso.

Este texto organiza o que a onda de choque gera no tecido e em quais indicações a evidência científica é mais clara. Não substitui consulta. Indicação, momento e plano de tratamento saem do exame feito no consultório — não de uma lista na internet.

O que é, em uma frase

Onda de choque não é choque elétrico: é uma onda de pressão — vibração forte e concentrada — aplicada na pele, sobre o ponto que dói.

É da mesma família tecnológica usada em outros contextos da medicina, como na urologia, que usa um aparelho parecido para lidar com pedras nos rins — mas aqui a intensidade e o objetivo são outros: estimular o osso, o músculo, o tendão e a fáscia, não “quebrar pedra”.

Efeitos que a onda de choque gera

O mecanismo central que explica como a onda de choque funciona se chama mecanotransdução: a célula converte um estímulo físico (onda acústica de pressão) em sinal bioquímico. Em linguagem simples, a onda “fala” com o tecido — e o tecido responde. Os efeitos mais descritos na literatura biológica e clínica são estes:

Em resumo didático: via analgésica (mais rápida) e via reparativa / regenerativa / remodeladora (semanas). A melhora clínica descrita nos estudos costuma aparecer ao longo do tempo, não no mesmo dia da primeira aplicação.

Indicações com evidência mais consistente

Abaixo, exemplos em que revisões e ensaios de qualidade sustentam benefício em dor e/ou função no grupo estudado. Heterogeneidade entre estudos existe. Isso não é protocolo da clínica nem garantia individual.

1. Fascite plantar (fascite / fasciopatia plantar)

É a indicação com base mais ampla e mais consolidada no campo das ondas de choque. Revisões com metanálise mostram redução relevante da dor frente a comparadores, com perfil de tolerabilidade aceitável — embora parâmetros de sessão influenciem adesão e resposta.

Âncora: Lippi et al., Eur J Phys Rehabil Med, 2024 — revisão sistemática com metanálise e metarregressão; PMID 39257331.

2. Tendinopatia calcárea do manguito rotador (ombro)

Outra indicação clássica. Revisões de terapias minimamente invasivas classificam a onda de choque de alta energia como opção segura e eficaz quando o tratamento conservador inicial falha; metanálises mais recentes de tendinopatia do manguito também favorecem dor e função frente a controles, com heterogeneidade a respeitar.

Âncoras: Louwerens et al., J Shoulder Elbow Surg, 2014 — PMID 24774621; Xue et al., BMC Musculoskelet Disord, 2024 (16 ECRs, 1.093 pacientes) — PMID 38704572.

3. Artrose do joelho (dor e função)

A evidência de síntese é favorável, com ressalvas honestas de heterogeneidade e de que a maior parte dos ensaios cobre artrose leve a moderada.

Silva et al. (2023) reuniram 12 ensaios clínicos randomizados (403 tratados vs 331 controles) comparando onda de choque a sham ou a cinesioterapia, com recomendações GRADE. Frente a sham, a onda de choque melhorou função no curto prazo (SMD −1,93; IC 95% −2,77 a −1,09) e reduziu dor no curto (MD −2,05), médio (MD −3,46) e longo prazo (MD −2,01). Associada à cinesioterapia, melhorou função no curto prazo e dor em todos os tempos — com a ressalva dos autores de que, em alguns agrupamentos de dor, a mudança pode não atingir relevância clínica. Heterogeneidade foi alta em vários desfechos (I² de 0% a 98%). Conclusão cautelosa dos autores: “may improve” função no curto prazo e dor nos seguimentos, frente a sham.

Outras metanálises apontam na mesma direção: Wang et al. (Pain Medicine, 2020) descreveram alívio de dor e melhora funcional até 12 meses frente a controle, com apenas complicações menores; Avendaño-Coy et al. (Int J Surg, 2020; 14 ECRs, 782 participantes) acharam evidência de qualidade moderada de redução de dor no curto prazo (VAS MD 1,7 cm; WOMAC MD 13,9 pontos), com densidade energética média mais eficaz que baixa ou alta nesse conjunto — revisão limitada sobretudo a artrose leve a moderada.

A diretriz AAOS 2021 de manejo não artroplástico da artrose do joelho inclui onda de choque com força de recomendação limited (pode melhorar dor e função), sinal de que a evidência existe, mas não é unânime nem definitiva.

Âncoras: Silva et al., Clin Rehabil, 2023 — PMID 36524275 (financiamento indexado CAPES; COI dos autores: unknown nesta leitura); Wang et al., Pain Med, 2020 — PMID 31626282; Avendaño-Coy et al., Int J Surg, 2020 — PMID 32798759; AAOS CPG Knee OA (Non-Arthroplasty), 2021.

4. Síndrome dolorosa do grande trocânter (GTPS / tendinopatia glútea)

Ensaio multicêntrico randomizado de nível I (onda focada + exercício vs sham + o mesmo exercício) mostrou redução maior da dor e melhores desfechos funcionais no grupo ativo, com taxa de sucesso reportada de 86,8% aos dois meses no critério do estudo — dado do ensaio, não previsão para o leitor.

Âncora: Ramon et al., J Bone Joint Surg Am, 2020 — PMID 32769596.

Outras indicações em uso clínico

Epicondilite lateral (“cotovelo do tenista”), tendinopatias do Aquiles (com diferenças entre insercional e não-insercional), tendinopatia patelar, lesões musculares, lesões ligamentares do tornozelo e outras condições entram em diretrizes e séries com graus de confiança variáveis — em alguns casos como adjunto, não como estrela única do tratamento. A decisão de incluir a onda de choque no seu plano continua sendo clínica.

O que a evidência não faz

Como fazemos na Galvão Ortopedia

Perguntas frequentes

Dói?

Incomoda. É um desconforto forte durante os poucos minutos da aplicação; a intensidade é ajustada com você na hora — sobe até o limite que você tolera, não além. Passa assim que o aparelho desliga.

O que sentir depois?

É comum ficar dolorido ou avermelhado no local por um ou dois dias — resposta esperada. Dor que piora progressivamente, inchaço grande ou febre: não é normal. Avise a nossa equipe imediatamente.

Quando a literatura descreve melhora?

Em geral ao longo de semanas, não no mesmo dia. Reparo e remodelamento levam tempo e exigem cuidado interdisciplinar; a melhora da dor pode aparecer antes, a mudança do tecido vem depois.

É o mesmo aparelho que quebra pedra no rim?

Mesma família tecnológica, intensidade e objetivo diferentes: aqui o alvo é estimular o tecido musculoesquelético — osso, músculo, tendão e fáscia —, não fragmentar cálculo.

O próximo passo

Se fascite plantar, ombro calcificado, dor de joelho ou dor lateral do quadril já atravessaram meses de tentativa, o caminho é uma avaliação completa — com tempo, exame e conversa honesta para avaliar se a onda de choque entra no seu plano.

Agendar pelo WhatsApp

Escrito por Dr. Pedro Galvão — Ortopedia e Traumatologia · Cirurgia do Joelho · CRM-PR 35.375 · RQE 27.205 · Mestre EPM/UNIFESP · Professor Assistente e Coordenador da Residência de Ortopedia e Traumatologia da UEL. Rascunho para revisão clínica — 5 de setembro de 2026 (edição Pedro).

Conteúdo educativo. Não substitui avaliação presencial.

Referências

  1. Lippi L, Folli A, Moalli S, et al. Efficacy and tolerability of extracorporeal shock wave therapy in patients with plantar fasciopathy: a systematic review with meta-analysis and meta-regression. Eur J Phys Rehabil Med. 2024;60(5):832-846. PMID 39257331.
  2. Louwerens JKG, Sierevelt IN, van Noort A, van den Bekerom MPJ. Evidence for minimally invasive therapies in the management of chronic calcific tendinopathy of the rotator cuff: a systematic review and meta-analysis. J Shoulder Elbow Surg. 2014;23(8):1240-1249. PMID 24774621.
  3. Xue X, Song Q, Yang X, et al. Effect of extracorporeal shockwave therapy for rotator cuff tendinopathy: a systematic review and meta-analysis. BMC Musculoskelet Disord. 2024;25:280. PMID 38704572.
  4. Silva AC, Almeida VS, Veras PM, et al. Effect of extracorporeal shock wave therapy on pain and function in patients with knee osteoarthritis: a systematic review with meta-analysis and grade recommendations. Clin Rehabil. 2023;37(6):760-773. PMID 36524275. Financiamento indexado: CAPES. COI dos autores: unknown nesta leitura.
  5. Wang YC, Huang HT, Huang PJ, Liu ZM, Shih CL. Efficacy and Safety of Extracorporeal Shockwave Therapy for Treatment of Knee Osteoarthritis: A Systematic Review and Meta-analysis. Pain Med. 2020;21(4):822-835. PMID 31626282.
  6. Avendaño-Coy J, Comino-Suárez N, Grande-Muñoz J, Avendaño-López C, Gómez-Soriano J. Extracorporeal shockwave therapy improves pain and function in subjects with knee osteoarthritis: A systematic review and meta-analysis of randomized clinical trials. Int J Surg. 2020;82:64-75. PMID 32798759.
  7. American Academy of Orthopaedic Surgeons. Management of Osteoarthritis of the Knee (Non-Arthroplasty): Evidence-Based Clinical Practice Guideline. 3rd ed. Published 31 Aug 2021. https://www.aaos.org/oak3cpg (recomendação limited para ESWT).
  8. Ramon S, Russo S, Santoboni F, et al. Focused Shockwave Treatment for Greater Trochanteric Pain Syndrome: A Multicenter, Randomized, Controlled Clinical Trial. J Bone Joint Surg Am. 2020;102(15):1305-1313. PMID 32769596.
  9. Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.336/2023 (publicidade médica).